Médico em Casa

"Eu tive COVID-19"

 Silmara Biazoto                                                                                                                                  04/07/2021     

Desde a descoberta da doença, há um ano e meio de pandemia, me lembro de ter feito ao menos 04 exames de RT-PCR porque achava que estava com COVID-19 e deram não detectado. Há duas semanas acordei com mau-estar e gripada, fui ao hospital Albert Eisntein e horas depois veio no meu email, detectado. Por alguns segundos o estado é de choque, a pergunta é: E agora?

Imediatamente eu e meu marido conversamos, ele tinha passado por isso semanas antes.

A primeira grande decisão foi optar pelo tratamento preventivo, que ele também tinha feito. O nosso pensamento era “Mal não vai fazer”. Vou tomar todos os medicamentos e aumentar as possibilidades de vencer o vírus. Para deixar claro tomei Hidroxicloroquina, Azitromicina, Dipirona, Ácido Acetilsalecílico, Vitamina D e Zinco.

Nesse início via a minha saturação sempre no oximetro comprado na farmácia, tudo estava bem até o sexto dia, nesse momento meu ciclo menstrual, que está de 20 em 20 dias, resolveu me visitar com cólicas e tudo mais, e a partir daí a minha saturação de 98 começou a cair. Passou a 96, 94, 92 e chegou a 89. Meu médico disse que eu estava ansiosa porque havia perdido há poucas semanas um tio muito querido.

Fiquei perdida e resolvi observar aquela noite. Compramos um inalador e isso me deu algum conforto.

Na manhã seguinte acordei pior e decidimos ir ao Sírio Libanês, nosso plano de saúde tem cobertura para esse hospital e nossos amigos indicaram o Clínico Geral, Dr. Euclides Cavalcanti, um médico com experiência no tratamento da COVID-19.

No caminho deixamos nossa filha, também diagnosticada com COVID, no apartamento deles, dois dos filhos também estavam isolados com o vírus e ficariam bem juntos. Isso nos ajudou muito.

Chegamos ao hospital e logo me colocaram no oxigênio. Estava em hipóxia silenciosa, isso é quando todo o organismo está em sofrimento, mas principalmente o cérebro está começando a não responder corretamente.

Mais tarde fui transferida para um apartamento e nos dias que se seguiram eu vi a minha saturação cair, as equipes que estavam cuidando dela sempre aumentavam um pouquinho o meu oxigênio: um litro, dois litros, três litros...

Depois de um dia de internação o Dr. Euclides gentilmente me convenceu que tinha uma outra máscara mais confortável que o cateter de oxigênio e que na sua opinião eu deveria usá-la, proporcionaria mais conforto porque teria uma outra dinâmica.

Nas horas que seguiram arrumaram minhas coisas porque eu mudaria de andar, do sétimo para o oitavo andar.

Me acompanharam de um andar para o outro 05 funcionários e meu marido. Nesse percurso passei pelo corredor da Unidade de Terapia Intensiva (UTI), ali senti um frio na espinha, sabia que a situação não era nada boa.

Chegamos em um quarto enorme e confortável, se não fosse a cama hospitalar, diria que estava num quarto espaço de hotel. Logo descobri o motivo de ser tão grande, aos poucos foram chegando equipamentos médicos e enchendo as laterais da cama.

Entrou uma mocinha franzina, dócil e muito competente, puxando um aparelho de imagem, ela me falou que iria colocar um Cateter Central de Inserção Periférica (PICC) no meu braço que chegaria próximo a veia cava. Por ali eu começaria a tirar o sangue matinal para os exames e receberia as medicações.

A nova máscara, agora de alto fluxo, um avanço no tratamento da COVID, não era tão boa assim como tinha imaginado, a psicologia médica funcionou bem para aceitá-la sem muito receio. Essa máscara manda uma quantidade de ar pelo nariz muito maior do que o paciente precisa, e se o jato de ar que sai não estiver quentinho , em uma hora resseca completamente a garganta. Passei por isso, e posso dizer que acionar o botão de calor para o ar faz toda a diferença.

Agora, com a máscara nasal de alto fluxo e minha oxigenação ainda baixando, o protocolo do hospital encaminha um documento para eu assinar autorizando, se precisasse de UTI, a fazerem todos os procedimentos necessários para o tratamento. Eu li atentamente a lista de procedimentos que eles poderiam precisar fazer, disfarcei e coloquei o papel sobre uma mesinha sem assinar e continuei conversando com o Dr. Euclides e meu marido. Eles perceberam que não tive coragem de assinar e continuamos por ali.

A alternativa principal para o momento seria tomar um medicamento usado para tratar a artrite reumatoide, um imunossupressor do laboratório Roche, o Tocilizumabe.

O médico explicou que na bula não tem indicação para o tratamento da COVID, mas que pelo que tinha lido em pesquisas internacionais e observado no tratamento de um paciente há poucos dias, havia uma grande chance de termos um bom resultado.

O paciente para receber esse remédio precisa estar bem de saúde e não ter comorbidade, e eu me enquadrava nesses itens. Além disso, assumir que o remédio poderia provocar no organismo fungos e bactérias que depois poderiam ser eliminados com antibiótico. Esse tratamento eu assinei consentindo a aplicação do Tocilizumabe.

Bem, contudo tínhamos que conseguir o remédio, o hospital solicita e consegue em torno de um décimo do pedido, ou seja, solicita 10 e recebe 01. Sim, o remédio não está sendo fabricado em alta escala e tem pouco.

O médico nos explica que algumas famílias estavam comprando esse remédio imunossupressor em Goiânia de um atravessador que estaria cobrando 24 mil reais por ele, o hospital cobra 5 mil reais, se o plano de saúde não der cobertura. 

Estarrecidos com a falta de dignidade desse ser humano goiano, que a desdém de vidas humanas, coloca um lucro de 500% em um medicamento emergencial que salva vidas, seguimos em frente.

Pouco tempo depois, tivemos a informação do hospital de que tinham conseguido o remédio e estaria sendo preparado, ele seria aplicado através de uma bomba, e eu receberia ainda no início da noite.

Recebi o Tocilizumabe por uma hora e depois senti um calor, algo começava a mudar no organismo. Dali em diante, a inflamação ficou sob controle, minha saturação começou a subir lentamente. Ficaram as dores de cabeça e ouvido. Foram dias sem conseguir comer.

Quando a inflamação estabilizou, percebi que a minha respiração ficou restrita, não podia inspirar profundamente e estava completamente bloqueada. Eu sabia que tínhamos interrompido o crescimento da doença no corpo, mas eu estava física e psicologicamente abalada.

Chorava muito ao pensar sobre as pessoas que não têm, tiveram e não terão acesso ao imunossupressor. Naquele momento tinha um outro paciente no mesmo andar querendo receber e não tinha para ele. A família estava tentando comprar no mercado livre goiano. Senti uma tristeza imensa por essa pessoa, chorei, chorei e chorei...

Rezar e chorar foi o que mais fiz nesse dia. A noite tive medo de dormir e não conseguir respirar, talvez um pouquinho de pânico.

No dia seguinte contei ao meu médico que rapidamente me sugeriu: acho que não vamos precisar mais ficar aqui, vamos voltar para o apartamento anterior no sétimo andar. Para voltar passamos perto da UTI e mandei todas as melhores vibrações para quem estava ali. Voltar para onde cheguei era um sinal claro de que estava melhorando.

Mais um dia e tiraram meu cateter de oxigênio, eu ficaria 24 horas em observação. Em todo o tratamento, os ouvidos dos funcionários do hospital ficaram atentos no estetoscópio. Eu tomei corticoide em altas doses e anticoagulante próximo ao umbigo duas vezes ao dia para não ter trombose, Acidente Vascular Cerebral (AVC) ou infarto.

No oitavo dia de internação tive alta do hospital com uma recuperação extraordinária segundo Dr Euclides. Somente um outro paciente de 40 anos e eu com 50 tínhamos nos recuperado tão rapidamente. Normalmente os pacientes internados inflamam muito, depois passam por um período de estabilidade, que dura em média uma semana, para depois começarem a melhorar.

Na noite que antecedeu a alta fiquei ansiosa, quase não dormi.

 

Aniversário no hospital

Fazer cinquenta anos é marcante, as pessoas na maioria pensam: estou ou já passei da metade da minha vida, preciso aproveitar e quero comemorar.

Eu nunca imaginaria completar 50 anos no oitavo andar, no momento crítico do tratamento da COVID.

Nossa filha e os amigos fizeram com todo carinho dois cartazes com mensagens, que foram colados junto com a decoração do hospital nas paredes.

Graças a tecnologia, uma equipe do hospital, nossa filha, meu marido e nossos amigos cantaram o parabéns pra você.

Comi meu bolinho e recebi alguns presentes que me deixaram muito feliz.

Foi assim os 50 anos, já resolvi que não vou mais esperar uma data determinada para festejar, qualquer dia pode ser o momento certo para comemorar.

 

Hospital de Campanha

Conversei numa noite dessas com uma enfermeira chamada Karina que me chamou a atenção porque era muito nova. Puxei uma conversa e fiquei sabendo que ela tinha começado a trabalhar como enfermeira aos 19 anos quando saiu do Pronatec.

Karina me contou que trabalha também num Hospital de Campanha e que as vezes não tem seringa, soro e outros equipamentos básicos para o atendimento aos pacientes.

Naquela noite eu já estava abalada com a falta do imunossupressor Tocilizumabe para outros pacientes e ouvir o depoimento dela sobre a realidade da saúde pública foi muito triste.

Tudo isso faz você repensar sobre as injustiças, desigualdades, valores e principalmente o nosso propósito na vida. Eu saio mudada depois de passar por essa experiência e pretendo me engajar em alguma ajuda social. Precisamos amenizar a dor e a desigualdade, muitas pessoas estão sofrendo.

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